Qual a importância da representatividade nas telas, sejam grande ou pequenas? Seja televisão, youtube ou cinema?

Dolto nos ensinou que a imagem inconsciente do corpo precisa sempre se refazer. Segundo a psicanalista francesa, no início da vida são as relações com os cuidadores que oferecem os elementos fundantes dessa imagem. Graças a esse acompanhamento próximo e atento dos adultos,  a criança poderá, aos poucos, se voltar para as produções sociais e culturais para procurar elementos que a diferenciem de sua família e lhe dêem a dignidade da singularidade. A aposta dos cuidadores na singularidade da criança está desde sempre colocada, mas, terá de ser conquistada por ela.

Para isso a representatividade nas produções culturais é mais um elemento de identificação a partir do qual a criança, ao mesmo tempo, se identifica e se diferencia – se identifica com aquele que não está presente senão culturalmente, e se diferencia daquele que está presente fisicamente desde o início de sua vida. É preciso que haja na cultura, à disposição da criança, essa identificação que já não é apenas familiar, e que lhe valida um lugar no mundo compartilhado não apenas pela família.

Em nosso tempo, e ainda mais neste momento de Pandemia, as telas são uma presença constante e para que não sejam apenas objetos de contemplação para as crianças é preciso que os adultos modulem os conteúdos e os tempos de exposição. Se valer das telas para apresentar às crianças a diversidade da vida humana, pode ser valioso nesse processo interminável que é a constituição da imagem inconsciente do corpo.

Carolina Gubert Viola
Psicóloga, especialista em Problemas do desenvolvimento na infância e adolescência pelo Centro Lydia Coriat, mestre e doutora em Educação pela UFRGS. Membro do Corpo clínico do Centro Lydia Coriat e do Corpo docente do Centro de Estudos Paulo César D’Ávila Brandão.