Novo tempo da educação em ‘tempo de quarentena’.

Desde o início da quarentena mundial, na qual fomos atingidos sem perdão, estamos às voltas com as questões vinculadas à educação e ao ensino. Nestes meses, pais, professores, alunos, terapeutas e todos que de alguma forma se ocupam deste momento da vida humana, nos colocamos à prova. Temos nos questionado a respeito de como lidar com o dia a dia das ‘coisas a serem feitas’ e da forma como cada escola tem envolvido seus alunos neste momento.
Há nitidamente uma diferença crucial entre as redes públicas e privadas de ensino escolar. Nunca, em nenhum tempo, esta foi tão evidente a quem quer olhar. Não há como falar de educação e ensino sem ter esta dimensão. Da mesma forma, vivenciar o ensino remoto nos anos escolares na infância e na adolescência nos fez ter a evidência de que o professor e o grupo de colegas são indispensáveis. O que não invalida as portas que a tecnologia abriu para o ensino.
Gostaria agora de levantar outra questão, um tanto mais delicada, deste nosso momento de ‘escancaramento’ de tantas situações. As pessoas com deficiência sejam elas alunas dasescolas regulares ou especiais estão ainda mais fragilizadas neste contexto pandêmico. Em seu texto “A cruel Pedagogia do Vírus”, Boaventura Santos nos traz como lembrança uma série de pessoas que “vivem em quarentena”, em isolamento permanente por conta da falta de  mobilidade ou acesso aos bens de consumo ou espaços múltiplos de vida. Quando fala das pessoas com deficiência, diz que estas “têm sido vítimas de outra forma de dominação, para além do capitalismo, do colonialismo e do patriarcado: o capacitismo.” Aqui revela a maneira como, em geral, a “sociedade discrimina negativamente, não reconhecendo suas necessidades especiais”.
Neste ponto surge uma das questões mais marcantes da educação neste momento. Tomo isto como impulso para lançar perguntas gerais para que se possa pensar na situação de ensino remoto ou mesmo na impossibilidade de acessá-lo, considerando aqueles alunos que sequer têm estrutura mínima de moradia e que, para esta modalidade de trabalho escolar e necessitariam de equipamentos eletrônicos, aos quais não têm acesso. Como alcançar saídas que possam, se não acabar, reduzir o já citado: a quarentena das pessoas com necessidades educativas especiais/deficiências? Os professores e os gestores dos processos educativos, como estão se ocupando dos planejamentos deste ensino remoto, tão inusitado para a maioria? Como podem exercer uma potência de trabalho que abarque as singularidades destes alunos?
Aqui, me parece importante dizer que as respostas podem ser diversas, porém as perguntas têm que existir. Sendo construídas a partir de um único aluno, de uma única situação. Só assim, de alguma forma, darão conta da possibilidade de encontro com a real razão de existência da escolarização: construir conhecimentos a partir das singularidades para que o coletivo seja beneficiado. Situação de empreendimento pedagógico que não difere da presencial, mas que, neste momento se faz ainda mais fundamental. Pois a distância em que muitas crianças estão representadas pela exclusão do ‘ideal’ de aluno da cada instituição, tem que ser considerada a todo o momento em que se planeja alguma de atividade pedagógica.
Este tempo de pandemia também está servindo para vermos que nenhum conhecimento é importante se não estiver a serviço de uma vida em sociedade que ampare a todos. Se  levarmos em conta essas questões, o isolamento imposto pela pandemia pode nos fazer redimensionar este tempo vivido, as escolas e a educação como um todo. De forma a reencontrar em seus trabalhos, um caminho mais fidedigno às necessidades e demandas humanas, através dos conhecimentos acumulados, mas principalmente da reinvenção dos mesmos. Assim, pensando que se entra de uma forma nas situações escolares e se sai múltiplo, criando novas formas de amparo, justificando o investimento educativo ao longo do tempo escolar para além de uma escolha profissional, pode-se vislumbrar como um novo desafio e uma nova forma de empreender a escolarização para todos.
Raquel A. Sulzbach é psicopedagoga, membro do Corpo Clínico do Centro Lydia Coriat, membro do Corpo Docente do Centro de Estudos Paulo César D’Ávila Brandão e Docente do Curso de Psicopedagogia da PUCRS.